Uso de ferramentas digitais pelo comércio amenizou efeitos da crise

Dirceu Tornavoi avalia que, além de ajudar na comunicação com os clientes, a digitalização ainda permitiu que “as empresas ultrapassassem o raio geográfico em que elas operavam”

Data: 18-11-2020
Fonte: Jornal da USP
Autor: Robert Siqueira

A pandemia da covid-19 chega ao oitavo mês no Brasil e é possível perceber, com mais clareza, os impactos causados em todos os setores da economia. O comércio, que durante todos esses meses ficou com as portas fechadas, vem reabrindo aos poucos, mas com um número menor de estabelecimentos, já que muitos não resistiram e fecharam definitivamente.

Por outro lado, para se manter no mercado, muitas empresas precisaram se reinventar e o processo de digitalização foi uma das alternativas. Um estudo feito pela Intuit QuickBooks, empresa norte-americana que desenvolve programas de computadores para gestão de pequenas e médias empresas e escritórios, apontou que 49,7% das pequenas empresas brasileiras migraram para a internet durante esse período.

É o caso de Nathália Mataruco, sócia de um escritório de advocacia em Ribeirão Preto. Criado em fevereiro deste ano, o serviço foi obrigado a migrar para os meios digitais e se adaptar ao novo momento. Nathália destaca que a mudança alterou tanto sua vida profissional quanto pessoal. Esse processo de digitalização, segundo a advogada, provocou ainda uma maior eficiência no trabalho. “Hoje, eu consigo lidar com o trabalho e com situações pessoais, porque estou dentro da minha casa”, garante.

O aumento de empresas que migraram para o meio digital seguiu o mesmo caminho das vendas on-line no período. Assim, o que se vê é que as plataformas digitais, seja para vendas ou serviços, se tornou uma estratégia de marketing. Mas esse não foi o único fator para a digitalização. Segundo Dirceu Tornavoi, professor da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade de Ribeirão Preto (FEA-RP) da USP, “mais que uma estratégia de marketing, foi uma estratégia de sobrevivência”.

Especialista em marketing, comportamento do consumidor e pesquisa de mercado, Tornavoi afirma que marketing e vendas andam juntas. O marketing, adianta, é o responsável pela comunicação, pelas vendas, portanto, “é o setor que traz recursos e faturamento para empresa”, e que, neste momento de crise financeira, ajudou as empresas a abrirem os olhos e “entenderem a importância dessas ferramentas digitais para a comunicação e vendas com seus clientes”.

O estudo da Intuit QuickBooks deixa evidente o processo de aceleração ao mostrar dados anteriores à crise, indicando que apenas 30% das empresas tinham planos de investir em plataformas digitais. O cenário mudou de rumo quando a vida financeira dessas empresas foi negativamente impactada pela pandemia.

Para o professor Tornavoi, essa realidade ajudou a amenizar a crise, uma vez que a pandemia chegou em um momento de crescimento da internet e das redes sociais. “Se não fosse por isso, a crise seria muito maior para os pequenos comércios”, avalia, acrescentando que, além de ajudar na comunicação com os clientes, a digitalização ainda permitiu que “as empresas ultrapassassem o raio geográfico em que elas operavam”.

Essa comunicação poderia ter sofrido mais com o home office, solução imposta pelo isolamento social; porém, foi salva pelo reforço das mídias sociais e conseguiu manter a clientela. Segundo a pesquisa, cerca de 54% dos empresários que migraram para o meio on-line também passaram a operar a empresa no sistema de home office. Mas 55% deles informaram que conquistaram novos clientes através da internet. Foi o que aconteceu com Nathália: a advogada garante que a queda de faturamento da empresa foi muito pequena. “A nossa captação não foi tão boa quanto presencial, mas os nossos clientes continuaram conosco e as pessoas passaram a nos encontrar nas mídias digitais, porque reforçamos nosso posicionamento na internet e investimos em mídias sociais, que foram convertidos em novos clientes.”

Com a economia voltando a funcionar, aos poucos a situação tende a melhorar, mas “não vai ser mais como era antes”, garante  Nathália, que já está montando um novo escritório físico. A advogada conta que tudo está combinado com os colaboradores da empresa para que o novo escritório seja usado apenas para reuniões esporádicas entre a equipe e alguns clientes. “A nossa ideia é seguir mesclando as duas formas, presencial e digital.”

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