Com varejo em expansão acima de 5,5% e a produção agrícola com alta de quase 10%, as atividades tendem a manter a relevância na economia brasileira neste ano.

 

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Agronegócio e comércio devem puxar PIB em 2020

Data: 09-01-2020
Autoria: Nelson Cilo
Fonte: Jornal Estado de Minas

São Paulo – Crédito e chuva. A combinação desses dois fatores, à primeira vista sem correlação, tem alimentado as perspectivas de crescimento da economia em 2020. O agronegócio e o comércio, segundo especialistas, tendem a ser os motores da expansão do Produto Interno Bruno (PIB) neste ano, projetado para avançar entre 2% e 2,5%, segundo o boletim Focus.

Sozinha, a produção agrícola deve subir cerca de 3%, pelos cálculos do Ministério da Agricultura (Mapa), mas algumas projeções já apontam para um avanço ainda mais robusto.

Nas contas da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), o Valor Bruto da Produção Agropecuária (VBP) será 9,8% maior em 2020 em relação a 2019. Assim, o faturamento do setor pode chegar a R$ 669,7 bilhões. “As safras dependem de ciclos biológicos, como o clima e a chuva, suscetíveis a mudanças, mas as perspectivas são muito positivas e devem se destacar no cenário econômico neste ano”, afirma o economista Felippe Serigati, pesquisador do Centro de Agronegócios da Fundação Getulio Vargas (GV Agro).

Em suas estimativas, o crescimento do mercado deve repercutir na economia, com efeito multiplicador em regiões e municípios. “Os efeitos positivos do agronegócio vão muito além do setor. Haverá melhorias no mercado de trabalho, taxa de emprego e crescimento econômico”, completa Serigati.

A aposta para a pecuária é ainda mais otimista. A atividade deve crescer 14,1% e alcançar o valor de R$ 265,8 bilhões, o que indica que 2020 será o ano do setor, com perspectivas de aumento da produção. Para a carne bovina, a estimativa é de expansão de 22,2% no VBP do próximo ano na comparação com 2019, atingindo uma receita de R$ 129,1 bilhões.

ACELERAÇÃO

Já o comércio, em 2020, deverá registrar o maior avanço anual no volume de vendas em sete anos. Segundo a Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), a estimativa é de que haja aumento de 5,5% no varejo ampliado e de 3% no varejo restrito – que exclui o ramo automotivo e de materiais de construção.

“Um fator com potencial para prover sustentabilidade ao atual ritmo de crescimento das vendas, principalmente de bens de consumo duráveis, é a demanda por crédito por parte das famílias, que tem aumentado muito em função da ampliação dos prazos ao longo do ano”, destaca o economista-sênior da CNC, Fabio Bentes.

No caso do comércio, com mais crédito e juros mais baixos, o grande motor da retomada econômica tem sido o consumo das famílias, à medida que o governo se esforça para cortar os seus gastos.
“O aumento da oferta de crédito tem sido bem mais robusto que outros indicadores de recuperação econômica, por conta do estímulo do Banco Central para a ampliação das condições de competição e oferta de crédito ampliada do Sistema Financeiro Nacional”, diz o economista-chefe da Associação Nacional das Instituições de Crédito, Financiamento e Investimento (Acrefi). “Tudo isso está relacionado à queda dos juros básicos. Com a Selic no menor patamar da história, em 4,5% ao ano, o cenário anima consumidores e empresários de todos os portes.”

SOJA

Assim como o comércio, o campo exerce papel fundamental na riqueza do país. Segundo dados do GV Agro, o agro representa hoje 25% do PIB brasileiro. “Apesar dos impactos sofridos com a greve dos caminhoneiros de 2018 e um cenário externo instável, a agroindústria chega em 2020 com uma atividade mais aquecida, com destaque para as carnes, com alta nas exportações para a China, e o setor sucroalcooleiro, com a produção de açúcar e etanol”, afirma Serigati, da GV Agro.

De acordo com a CNA, há expectativa de alta para o VBP de outras proteínas animais, como os suínos (+9,8%), pecuária de leite ( 7,5%) e frangos ( 7,1%). O principal destaque do VBP agrícola será a soja, com alta de 14,1%. A oleaginosa deve encerrar 2020 com faturamento de R$ 165,2 bilhões, impulsionada pelo aumento dos preços e da produção. O milho também terá crescimento ( 3,3%), por causa da valorização dos preços, assim como a cana-de-açúcar ( 7,1%).
Dados divulgados na quarta-feira (8) pelo IBGE também apontam para números positivos. Segundo o instituto, o Brasil deve registrar em 2020 novos recordes tanto na produção de soja quanto na de algodão. A projeção faz parte do terceiro Prognóstico para a Produção Agrícola.

A produção nacional de soja, de acordo com o IBGE, deve chegar a 122,4 milhões de toneladas neste ano – alta de 7,8% em relação à colheita de 2019. Haverá aumento de produtividade, já que a área a ser plantada, 36,6 milhões de hectares, terá aumento de 2,2% em relação ao ano anterior.
As projeções do IBGE, se confirmadas, darão novamente ao Brasil a posição de liderança mundial na produção de soja, passando os Estados Unidos para o segundo lugar. Mato Grosso será responsável por pouco mais de um quarto (26,9%) do total de soja produzida pelo país.

TRÉGUA NA GUERRA

Um dos fatores que ajudam a nutrir a aposta de alta do agronegócio é uma eventual trégua na guerra comercial entre EUA e China, que pode repercutir nas exportações brasileiras. Para Vitor Andrioli, coordenador da INTL- FCStone, as commodities afetadas pela primeira fase do acordo comercial EUA-China seriam a soja, o algodão, o café e o milho.
No caso do etanol, o cenário pode ser diferente porque o produto deve ser incluído no pacote chinês de compras. O gigante asiático procura reduzir as emissões e conter a poluição urbana. Outro fator é o etanol nos EUA: se os americanos começarem a exportar mais etanol, haverá uma demanda aquecida para os preços do milho.

BC defende crescimento sólido

“Para nós, não é o 2,2% de projeção de alta do PIB em 2020 o mais importante. Mais importante é como vamos crescer no próximo ano.” A afirmação do presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, em recente encontro com jornalistas, endossa a afirmação de que a expansão da economia será em bases sólidas.

Se a projeção do BC se confirmar, o resultado do PIB neste ano será aproximadamente o dobro do registrado em 2019. O executivo destaca que as projeções de PIB consideram que, dentro da economia brasileira, a parte pública está ficando menor, enquanto a parte privada está crescendo. “O plano do governo é reinventar o crescimento de forma mais privada.”

Na avaliação do BC, a recuperação da economia em 2020 será de “melhor qualidade” por conta justamente da alta dos investimentos privados. Nas projeções da autarquia, a Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF) – medida que traduz os investimentos produtivos – crescerá 4,1% no próximo ano. O número está acima dos 3,3% de expansão esperados para o consolidado de 2019.

“É uma recuperação saudável, puxada pelo investimento, em grande parte por conta do setor imobiliário, cuja retomada não está concentrada apenas em São Paulo, mas espalhada em vários estados e capitais”, afirmou o diretor de Política Econômica do Banco Central, Fabio Kanczuk.
O BC também se mostrou mais otimista com os dados do encerramento de 2019. A projeção de expansão do PIB este ano subiu de 0,9% para 1,2%. Nesse caso, além de uma expansão de 3,3% nos investimentos, o BC projeta uma alta de 2% no consumo das famílias.

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