A Covid-19 abriu uma batalha entre a mobilidade sustentável e a saúde pública, alerta Charles Landry especialista em planeamento urbano, na primeira entrevista do PMS 2020

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A pandemia afugentou o transporte público das cidades

Data: 15-05-2020
Autoria: Kátia Catulo
Fonte: TSF Rádio Notícias

A Covid-19 alterou a forma de pensar a mobilidade dentro e fora dos centros urbanos. Mas o que aí vem agora é que irá redefinir o futuro das nossas sociedades. Chegou o momento da “grande batalha” entre os que vão lutar por uma “agenda mais verde” e os que querem o regresso da normalidade nos moldes anteriores. O aviso é de Charles Landry, o consultor internacional que inventou o conceito de cidade criativa e que é também o curador do Portugal Mobi Summit desde a primeira edição, em 2018.

Landry, que foi o primeiro convidado das entrevistas do PMS 2020, olha para esta pandemia como uma oportunidade para repensar a forma como se planeiam as cidades. Mas tudo dependerá de quem vai ganhar este jogo de forças: “Estamos perante um processo que nos coloca num conflito interno entre os benefícios e as perdas que tivemos com os novos modelos de trabalho e com a imposição do distanciamento social.”

É que, se por um lado, todos reconhecem que é incomparavelmente melhor viver num planeta sem filas de trânsito nem níveis tóxicos de poluição, por outro, a necessidade de afastamento social, provocado pela Covid-19, poderá afugentar a maioria das pessoas dos transportes públicos: “O automóvel é, nestes dias, a solução mais segura tendo em conta a proteção da saúde pública, mas todos sabemos que não é uma opção ambientalmente sustentável.”

São estas as “duas forças a movimentarem-se em sentidos opostos” que tornam incerto caminho que há pela frente. Depois de se terem habituado ao teletrabalho, aliás, as pessoas questionam agora se fará sentido enfrentar todos os dias engarrafamentos para ir trabalhar: “Com as plataformas digitais a pouparem tempo, dinheiro e emissões, haverá certamente uma boa parte da população a querer repartir a semana entre a casa e o escritório.” A circulação poderá vir a ser mais reduzida, mas é preciso não esquecer também o impacto da queda do preço do petróleo nos no uso do carro particular: “A micromobilidade – a bicicleta e a scooter – poderá sair reforçada nas cidades, embora não resolva as deslocações de longa distância.”

A balança tanto pende para um lado como para o outro, mas “no final do dia”, tudo se resume às políticas que as cidades vão adotar daqui para frente, adverte o especialista britânico: “A minha esperança é que a agenda da sustentabilidade e da descarbonização se imponha com uma urgência ainda maior do que antes, mas reconheço que não será fácil, sobretudo porque os transportes públicos se tornaram numa questão sensível.”

Não há, portanto, um caminho claro a emergir desta pandemia. Mas, como em muitas outras situações, também na mobilidade e no planeamento urbano, não haverá uma única resposta: “Cada cidade encontrará as suas políticas e estratégias próprias”, diz Charles Landry. Aquelas que já antes estavam comprometidas com a transição energética vão continuar com esse objetivo, mas vão ter de lidar com essa “dualidade” entre o que é melhor para a saúde pública e as soluções sustentáveis.

“Estamos todos à procura de respostas”, explica o consultor, recordando que, também durante a pandemia, os países e as cidades assumiram diferentes estratégias – umas com mais restrições à circulação do que outras. “Estou convencido de que também nesta fase que se segue haverá caminhos mais individualizados”, conclui o especialista em planeamento urbano.

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