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Terça-feira, 16 de Maio de 2017 | Revista Exame
O que muda para os clientes da XP após a associação com o Itaú
Marília Almeida

Apesar de o comunicado da corretora XP Investimentos anunciar que a compra de uma fatia do negócio pelo Itaúnão afeta a independência do negócio, profissionais do mercado financeiro veem alguns riscos na associação, que devem manter clientes em alerta.

De acordo com a XP, em nota, o acordo prevê a independência operacional e livre competição entre as empresas, a manutenção da plataforma aberta e campanha de taxa zero (a corretora não cobra taxa de custódia, para investimentos no Tesouro Direto e nem em TEDs), a preservação dos acordos comerciais com atuais parceiros e a valorização da profissão de agente autônomo de investimentos.

Foto: Escritório da XP - controle da corretora pode ser repassado ao banco até 2024 e lança dúvidas sobre se o modelo de negócio será mantido.

Contudo, os clientes da corretora parecem não ter sido totalmente convencidos disso. Não foram poucos os que demonstraram descontentamento com a entrada do Itaú no negócio, anunciada na sexta (15). Em comentários feitos em redes sociais, clientes dizem que estão se “sentindo traídos”.

Isso porque a corretora ganhou mercado com o discurso de desbancarização. A XP cresceu vendendo a ideia de que uma plataforma aberta, que ofereça uma infinidade de produtos, pertencentes a diversas instituições financeiras, tem maior competência para cuidar de investimentos do que um banco.

O argumento é de que o banco só distribui os próprios produtos. Além disso, seus gerentes ganham comissão por vender as aplicações mais rentáveis para a própria instituição financeira, ainda que não sejam adequadas ao perfil e objetivo do investidor. E, para piorar, cobram taxas altas por estes serviços.

Ao analisar o discurso da XP após a divulgação do negócio, um profissional do mercado financeiro lembra que a tendência de plataformas abertas de investimento é algo irreversível que ganha ainda mais força agora, em um cenário de juros mais baixos. “Não dá mais para oferecer poucos produtos do portfólio ao investidor. O cliente vai precisar tomar mais riscos. Isso demanda uma assessoria melhor, de uma corretora independente”.

Não faria sentido neste cenário, portanto, o banco investir alto em um negócio para correr o risco de manchar a sua credibilidade, que é o capital mais valioso da corretora, analisa.

Além disso, a associação representa uma vantagem para a XP. “As corretoras estão tendo muitos custos com tecnologia. Não à toa, muitas fecharam as portas nos últimos anos. Ter um parceiro sólido ajuda a fazer frente a estas despesas”.

Negócio tem seus riscos

Os problemas que analistas do mercado vêem na associação da XP com o Itaú é que, geralmente, a cultura da empresa maior tende a se sobrepor a da empresa menor. Esse risco aumenta caso o controle da XP seja repassado ao banco, conforme prevê o contrato do acordo. Um aumento de burocracia, por exemplo, poderia fazer com que a corretora perca o seu atrativo para clientes, por exemplo.

O negócio prevê que os sócios da XP têm o direito de vender o controle da companhia ao Itaú a partir de 2024, apesar de o fundador da corretora reforçar que esta cláusula não é obrigatória.

Além disso, o banco pode ter a tentação de priorizar seus produtos na distribuição da corretora. “A questão é que, se o cliente ver mais produtos do Itaú na plataforma, ele vai suspeitar. O risco moral é grande, e outras corretoras estão preparadas para pegar essa clientela que ficar insatisfeita”, diz um profissional do mercado financeiro, que não quis se identificar.

O economista e professor do Senac Clodoir Vieira lembra da compra da corretora Ágora pelo Bradesco. “Era a corretora mais importante na época, mas foi descaracterizada totalmente pelo Bradesco e acabou sumindo do mercado”.

Questionado, o presidente da XP, Guilherme Benchimol, disse que, diferente da aquisição da Ágora pelo Bradesco, o Itaú entra como um investidor, e não para tomar posse do negócio. É importante, portanto, que a corretora mantenha a gestão independente, analisa Vieira.

O economista aponta que o risco para o cliente, além de uma eventual perda de neutralidade na distribuição de produtos da XP, é uma concentração do mercado. “Com concorrência menor, a tendência é que o investidor acabe pagando mais pelos serviços que contrata. As instituições financeiras podem acabar cobrando a taxa que quiserem. A Ágora mesmo é um exemplo de corretora que democratizou preços no mercado, mas acabou desaparecendo”.

Contudo, Vieira aponta que a associação da XP com o Itaú pode ser diferente. “Os bancos viam as corretoras como um departamento. Agora talvez estejam percebendo que podem ganhar dinheiro com ela, contanto que mantenham o seu diferencial de independência”.

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